Em “Um rio em mim”, Manoela Medeiros reafirma sua pesquisa sobre as camadas visíveis e invisíveis do mundo, transformando pintura em escavação e superfície em memória.

A Nara Roesler Rio de Janeiro abre, no dia 26 de março de 2026, às 18h, a exposição “Um rio em mim”, reunindo trabalhos inéditos da artista Manoela Medeiros. Conhecida por seu singular processo de escavação na pintura, Medeiros apresenta obras criadas especialmente para a mostra, aprofundando uma investigação que atravessa matéria, tempo e espaço.

Vivendo desde 2012 longos períodos na França, onde vem consolidando sua carreira junto a outros jovens artistas, Manoela Medeiros mantém base também no Rio de Janeiro, onde está localizado seu ateliê. Sua relação com o país europeu começou em Paris, quando ingressou na École des Beaux-Arts. Desde então, retorna regularmente à capital francesa para residências artísticas, como a realizada na Cité des Arts, em 2019. A partir de 2021, passou também a se dividir com Marselha, após ser contemplada com uma bolsa oferecida pela prefeitura local. No ano passado, apresentou uma individual na Palo Gallery, em Nova York, que recebeu crítica elogiosa da revista Artforum.

“Um rio em mim” marca a primeira individual da artista na unidade carioca da galeria. Na cidade, suas participações recentes incluem mostras como “Rasura”, com curadoria de Victor Gorgulho, também na Nara Roesler (2026); “Hábito-habitante”, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (2021); e “Superfícies sensíveis”, na Caixa Cultural (2018).

“Busco trabalhar de forma mais intuitiva e aberta.”
Manoela Medeiros

Na base de sua prática está uma compreensão expandida da pintura. Para Manoela Medeiros, tanto as paredes quanto suas obras funcionam como um “repositório de sedimentos arquitetônicos”. Parte de seu gesto consiste em subtrair camadas sobrepostas, criando composições “a partir da retirada de material que antes cobria a superfície da obra”.

“A arqueologia não é vista como um tema, mas como um método de trabalho.” —Manoela Medeiros

Ao escavar superfícies — muitas vezes também as paredes do próprio espaço expositivo —, a artista atua “revelando as camadas de cores e materiais utilizados, recobertos e, assim, esquecidos ao longo do tempo”. Nesse processo, Medeiros opera em um “espaço liminar entre a construção e a destruição com um gesto que beira o de um pintor-pedreiro-arqueólogo”.

“As obras são marcadas por imperfeições, desgastes e descontinuidades.” —Manoela Medeiros

Do gesto físico e incisivo emergem formas delicadas, que evocam elementos naturais como plantas e folhas. Em algumas peças, cores mais intensas se destacam; em outras, prevalece o aspecto mais abstrato da matéria desbotada e rachada. A artista destaca que, nesta exposição, o processo de criação assumiu um caráter mais intuitivo.

“Foi a primeira vez em que o processo de criação aconteceu de forma bastante orgânica e livre. Dessa vez, foi o processo no ateliê que ditou mais as obras da exposição. Fui fazendo livremente, principalmente pinturas escavadas, e a partir delas formando um conjunto e sua conversa.” —Manoela Medeiros

A tensão entre elementos naturais e construídos atravessa toda a produção da artista. Manoela Medeiros afirma que seu trabalho “está em um limiar entre natureza e cultura”.

“O que me interessa não é exatamente a arquitetura em si, mas o entorno, onde as coisas estão inseridas. Então, seja a arquitetura do espaço expositivo onde realizo trabalhos site specifics, ou uma ruína abandonada, local onde coleto fragmentos de paredes – matéria-prima essa que é utilizada em trabalhos –, o ambiente onde sujeito e coisas se encontram e as relações que são tecidas entre eles são o que me interessam.” —Manoela Medeiros

Ao utilizar materiais oriundos da própria arquitetura, sua pintura ganha um caráter quase escultórico, evocando paisagens naturais. Nesse contexto, a artista observa que “a natureza surgiu em sua pesquisa nessa dualidade que é a ruína”.

“Uma arquitetura construída e ao mesmo tempo uma arquitetura destruída, que é pouco a pouco invadida e devolvida à natureza. Essa espécie de suspensão, esse lugar entre duas coisas, ou não-lugar, que na verdade nada mais é do que um ateliê vivo, é o que me interessa”. —Manoela Medeiros

A recente maternidade também atravessa sua prática, sobretudo no modo como reorganiza o tempo e amplia sua disponibilidade para o improviso. Ainda assim, a artista aponta que sua expectativa com a mostra “é a de continuar experimentando de forma livre”. Seu processo criativo se ancora na abertura ao acaso e à experiência do presente:

“No ateliê procuro não antecipar o que irei trabalhar. As decisões acontecem de forma livre e no presente. Nunca sei onde uma pintura vai me levar, pois não costumo trabalhar com esboços prévios. Cada camada é uma camada de decisão daquele instante. O que rege muitas vezes é a preferência por alguma paleta ou tonalidade. Por exemplo, tenho trabalhado principalmente em uma paleta um pouco mais lavada e clara”. —Manoela Medeiros

Nascida em 1991, no Rio de Janeiro, Manoela Medeiros desenvolve uma produção que ultrapassa os limites tradicionais da pintura, incorporando elementos da escultura, da performance e da instalação. Suas obras e intervenções in situ investigam relações entre espaço, tempo e corporeidade, tanto da arte quanto do espectador. Ao intervir diretamente nos espaços expositivos, a artista constrói trabalhos a partir de características específicas do lugar — materiais, estruturas e condições de luz. Sua prática revela a arquitetura como corpo, expondo suas camadas internas e propondo uma experiência sensorial que evidencia o tempo inscrito nos materiais. Por meio de procedimentos arqueológicos, Medeiros traz à superfície aquilo que costuma permanecer oculto. Suas escavações tornam visíveis as camadas acumuladas ao longo do tempo, fazendo coexistir diferentes temporalidades e sugerindo que construção e destruição não são opostos, mas processos complementares.

A trajetória da artista inclui exposições individuais como “Tropical Still Life” (2025), na Palo Gallery, em Nova York; “Comment naissent les formes” (2025), na Double V, em Marselha; “O carnaval da substância” (2022), na Nara Roesler, em São Paulo; além de mostras em Portugal e França. Entre as coletivas, destacam-se participações em instituições como a Fondation Villa Datris, a Fundação Iberê Camargo e galerias na Bélgica e em Paris.

Fundada em 1976, em Recife, a Nara Roesler consolidou-se como uma das principais galerias de arte contemporânea do Brasil. Com sede em São Paulo e unidades no Rio de Janeiro e em Nova York, a galeria desempenha papel fundamental na promoção e internacionalização de artistas brasileiros. Ao longo de sua trajetória, também investiu na produção editorial e em programas de intercâmbio curatorial, ampliando o alcance da arte contemporânea brasileira no circuito global.

Em “Um rio em mim”, Manoela Medeiros reafirma sua pesquisa sobre as camadas visíveis e invisíveis do mundo, transformando pintura em escavação e superfície em memória — um gesto que convida o espectador a perceber o tempo não como linha, mas como matéria.


Serviço: exposição “Manoela Medeiros – Um rio em mim”, dia 26 de março de 2026, às 18h, com visitação até 9 de maio de 2026 e entrada gratuita. A mostra acontece na Nara Roesler Rio de Janeiro, localizada na Rua Redentor, 241, em Ipanema, Rio de Janeiro (CEP 22421-030), com funcionamento de segunda a sexta, das 10h às 18h, e aos sábados, das 11h às 15h.


As fotografias que acompanham esta matéria são do fotógrafo Rafael Salim.

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Publicado por:Philos

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